5. INTERNACIONAL 23.1.13

A FRANA GOLPEIA O TERROR
O governo de Franois Hollande intervm no Mali, pas africano que fundamentalistas islmicos associados a tuaregues tentavam transformar num Afeganisto.
MARIO SABINO, DE PARIS

     At a semana retrasada, para a maioria dos franceses, Timbuktu era o nome de um lugar fictcio, cenrio de uma das dezenas de histrias de Tintim, o personagem dos quadrinhos que, conectado ao imperialismo europeu, ainda sobrevive no tempo do politicamente correto. Agora, de Marselha a Lille, de Estrasburgo a Rouen, sabe-se que Timbuktu no s existe de verdade, como  uma das principais cidades do Mali, pas que, ex-colnia francesa, se destaca como um dos mais miserveis de uma frica quase toda abaixo da linha da pobreza absoluta.  nesse groto que o Exrcito da Frana, conhecido como La Grande Muette, ou O Grande Mudo, na transposio de gnero, est realizando um solo de pera dramtica desde a sexta 11. O presidente Franois Hollande resolveu intervir no Mali, antes que o pas casse integralmente nas mos de terroristas islmicos, tuaregues provenientes da Lbia e mercenrios de variados matizes. Eles j haviam se apoderado do norte do pas  o equivalente a dois teros do territrio maliano. No ano passado, aproveitando-se de um golpe de estado que derrubara o presidente do Mali, esses indivduos adorveis declararam a regio independente e governada pela Sharia, o terrvel cdigo de leis derivado do Coro que lhes vem servindo para cometer barbaridades contra a populao civil. A falta de reconhecimento internacional no os desestimulou  pelo contrrio. Com a desordem institucional reinante, o bando decidiu tomar o Mali inteiro, e desceria em direo  capital, Bamako, no fosse a Frana dar um basta na situao por meio da operao Serval, nome de um felino que habita aquela parte da frica.
     Os franceses obtiveram respaldo da Organizao das Naes Unidas, dos seus parceiros europeus e dos Estados Unidos, das naes que fazem fronteira com o Mali e do governo maliano  a esta altura, convenhamos, o aval menos importante. Um governo to esfacelado que o seu ministro das Relaes Exteriores foi intimado a ir a Paris, na tera-feira passada, para dar uma entrevista coletiva de ultimssima hora aos jornalistas que trabalham na capital francesa.  que faltava um pedido oficial de ajuda, logo providenciado pelos diplomatas do Quai dOrsay. O presidente Hollande disse que a interveno visava a trs pontos iniciais: forar o recuo dos rebeldes, fornecer segurana aos cidados e preservar a unidade do pas. No fim, vamos destruir os terroristas que pretendiam usar o Mali como base para atentados ao redor do mundo, concluiu Hollande. Aplaudida pelos aliados, a Frana, no momento, esta como a Esttua da Liberdade: sozinha, com a tocha na mo. Afora as palavras de solidariedade e algum apoio logstico, as naes amigas relutam em formar uma coalizo semelhante quela que derrubou o ditador Muamar Kadafi na Lbia, em 2011. A crise econmica levou todos a cortar na bucha dos canhes, e ningum parece disponvel para lutar na frica depois da aventura na Lbia, em que a geopoltica deu lugar ao geoproselitismo.
     A encrenca no Mali  consequncia direta do que ocorreu na Lbia. Ou, em outras palavras, Hollande est limpando o lixo que seu predecessor. Nicolas Sarkozy, deixou que se esparramasse, ao comear uma guerra contra Kadafi na qual o resto do Ocidente embarcou. Na ltima dcada, o ditador, um dos mais sanguinrios e pitorescos de que se tem notcia mesmo para os largos padres africanos, conseguiu segurar, a bom preo pago pela Europa, a ao de terroristas islmicos e os anseios irredentistas dos tuaregues, povo seminmade que se espalha no miolo formado por Arglia, Mali, Nger, Chade, Burkina Faso, Nigria e, claro, Lbia. Com a queda de Kadafi e a primavera rabe no Magreb, que destituiu tiranos na essncia laicos e os substituiu por tiranos muulmanos s na aparncia moderados, os terroristas viram-se  vontade para agir na regio adjacente do Sahel  a faixa de terra que se interpe entre o deserto magrebino (o Saara) e o sul equatorial, com populaes j predominantemente negras. Foi para o Mali que fugiram de 1000 a 1500 tuaregues provenientes de diversas naes, armados com parte do arsenal roubado ao exrcito de Kadafi. Leais  memria do ex-ditador, que os paparicava como casta privilegiada, eles juntaram-se a islmicos e demais facnoras, para transformar aquele pas do Sahel no mais novo inferno jihadista. Querem, de um jeito ou de outro, vingar-se dos algozes do lder lbio. Esses tuaregues ainda so gratos a Kadafi por ele lhes ter dado trabalho, documentos e por ter intercedido em seu favor no Nger, em 2009, no conflito com o governo em torno da diviso dos royalties da explorao de urnio, explica o estudioso Laurence Ada Ammour, ligado ao Centre Franais de Recherche sur le Renseignement.
     Urnio.  bvio que, como ex-potncia colonial, a Frana tem interesses prprios em jogo no Mali e adjacncias. Em especial, no combustvel dos reatores nucleares que geram a maior parte da eletricidade consumida por sua populao. Mas  tambm verdade que se trata de uma guerra que merece ser lutada pelo Ocidente. O presidente Hollande est certo quando diz que os terroristas queriam usar o Mali como plataforma de apoio e treinamento. Foi o que a Al Qaeda fez no Afeganisto, na dcada de 90. O plano do governo francs  dedetizar a praga fundamentalista em quatro meses e, em seguida, delegar a segurana do pas a Nger, Nigria, Benin, Togo, Burkina Faso, Costa do Marfim e Senegal, vizinhos assustados que, integrantes da Comunidade Econmica dos Estados da frica Ocidental, se comprometeram a fixar, no total, cerca de 3500 soldados em solo maliano.  Frana, depois da guerra, caberia ajudar o Mali a estabelecer um ordenamento jurdico-democrtico que desse fim  baguna que h anos impera em Bamako. Pode haver um tanto de otimismo em tal agenda.
     Vinte dias antes de intervir no Mali, o presidente Hollande fez uma visita  Arglia, ex-territrio da Frana que enfrentou uma cruenta guerra de independncia com a antiga metrpole entre 1954 e 1962. Os jornais franceses a consideraram um desperdcio porque ele no pediu desculpas pelos crimes cometidos pelas tropas de ocupao, mas est claro que no foi para isso que esteve l. Hollande foi  Arglia para negociar a abertura do espao areo aos avies que bombardeariam o Mali. O governo argelino, numa deciso histrica que ignorou as feridas ainda abertas com a Frana, deu a permisso porque os terroristas islmicos e os tuaregues vinham usando o sul do pas como trampolim para cometer suas barbaridades no norte do Mali. Trata-se de uma diferena positiva em relao ao Afeganisto. Enquanto o Paquisto constitui uma imprescindvel fonte de suprimentos materiais e humanos aos talibs e aos terroristas da Al Qaeda, nenhuma nao prxima ao Mali  simptica ao fundamentalismo islmico ou  causa nacionalista tuaregue.
     Na tera-feira 15, Paris viu desfilar pela Ponte Alexandre III, a mais monumental sobre o Sena, o cortejo com o primeiro militar morto em batalha. No palcio dos invalides, que abriga a tumba de Napoleo Bonaparte, houve uma cerimnia fnebre solene, com a presena do primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault, ruim de administrao e excelente cavalo de parada. A capital da Frana encontra-se em alerta mximo, com soldados uniformizados e  paisana nos principais pontos tursticos, dentro do programa de segurana batizado de vigipirate. O dado curioso  que o Exrcito guarda a Torre Eiffel e funcionrios de origem rabe so os responsveis pelos detectores de metais instalados na entrada do elevador que d acesso ao smbolo da cidade. A ameaa foi direta: os grupos islmicos que atuam no Mali juraram morder Paris.
     Esse co crbero tem quatro grandes cabeas: a Al Qaeda no Magreb Islmico, o Defensores da F, o Movimento Unitrio e Jihadista no Oeste da frica e a Brigada dos Signatrios por Sangue, comandada por Mokhtar Belmokhtar, um argelino de 40 anos, apelidado de O Zarolho, e que ficaria muito bem como vilo de uma das aventuras de Tintim. Ele  um livre empreendedor. Depois de ser expulso da Al Qaeda magrebina, por insubordinao, abriu seu prprio negcio na arriscada rea do terror. Belmokhtar e seus comparsas invadiram uma usina de gs na Arglia, na localidade de In Amnas, e fizeram centenas de refns. Para libert-los, eles exigiam que a agresso ao Mali fosse interrompida. O Exrcito argelino invadiu a usina, mas as notcias sobre a sua ao eram imprecisas at o fechamento desta edio. Teriam sido liberados 573 argelinos e 100 estrangeiros. Dezoito dos trinta terroristas teriam morrido. O resto do bando continuava entrincheirado na usina, com sete refns em seu poder, de acordo com o que foi possvel apurar, diante do silncio do governo argelino. Belmokhtar teria passado a exigir a liberdade de dois integrantes da Al Qaeda, um egpcio e um paquistans, presos nos Estados Unidos por causa dos atentados de 11 de setembro de 2001. No importa a exatido da contagem. O Zarolho parece disposto a vender bem caro a sua derrota.


